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quinta-feira, 25 de junho de 2009

Eu, Etiqueta - Carlos Drummond de Andrade


Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.


Poesia Latina


Vinte Poemas de Amor – XX
Pablo Neruda


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.

Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.



tradução de Fernando Assis Pacheco

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Desfile de Ronaldo Fraga, sorry SPFW

Eu achei que não iria comentar nada sobre o SPFW (27ª edição do São Paulo Fashion Week), mas esqueci que Ronaldo Fraga participa, logo, seria impossível ser tudo obvio. O que podemos esperar de um estilista que recita Carlos Drummond em suas palestras, quando os espectadores esperam pela novíssima forma de colar glitter aos jeans? Algo no mínimo diferente, algo realmente BOM e pensante.
Esse ano ele trouxe para a passarela o Tema: A Disneylândia onde pode se encontrar as caveiras e as flores de Frida Kahlo, com a literatura de Gabriel Garcia Marques ambientalizado com música latina, nada do que o senso comum poderia prever. O próprio Ronaldo define sua coleção, como vislumbra a verdadeira América Latina: "Meus olhos se derretem pelas festas mexicanas, pelo artesanato têxtil colombiano, pela emoção do cinema argentino, pelos confetes e serpentinas do carnaval de Olinda, pelas letras de Borges, Drummond, García Marquez, Cortázar… frentes de resistência cultural em um mundo movediço e sem fronteiras". Para definir o desfile e seu auto/estilista discordo do outro mineiro que diz que atualmente as mãos tecem apenas o rude trabalho e o coração está seco e concordo com o mesmo ao afirmar “garanto que uma flor nasceu”.


(fonte http://ronaldofraga.com/blog/)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO - Dylan Thomas



E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-secom o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossoshão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do marnão morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecemos tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fée, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.
E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer como pregos as suas cabeças pelas margaridas; é no sol que irrompem até que o sol se extinga, e a morte perderá o seu domínio.



terça-feira, 14 de abril de 2009

Ode para a medíocre sociedade decadente

No romance "Vermelho e o Negro," Stendhal caracteriza a sociedade vasta de muita ambição e de pouca coragem individual





Henry Beyle, ou Stendhal como assinava alguns de seus livros, acreditava que a verdadeira nobreza está no espírito e não no sangue azul dos avec-culottes. Para o autor ser culto, nobre, estava no modo de agir, nos pensamentos diários, que ultrapassavam os grandes salões de festas.



Escrito em 1830, "O Vermelho e o Negro" é uma ácida crônica, que analisa psicologicamente, a decadente sociedade francesa do período da Restauração pós-napoleônica. O autor expõe as ambições mesquinhas da emergente sociedade de classes.O jovem Julien Sorel, nascido numa cidade do interior da França, desde cedo sofreu com o preconceito do pai e irmãos por se interessar pelo gosto da leitura e do conhecimento.



Julien, durante a infância estudou com o cirurgião-mor da cidade, depois contou com os ensinamentos do Cura, aprendendo latim e o Novo Testamento. Na adolescência, a convite do prefeito da cidade, Senhor Rênal, o jovem muda-se para ser preceptor dos dois filhos dele. Na casa do prefeito o jovem cria várias estratégias para conquistar a Senhora Renal, até o romance tornar-se um escândalo e se ver obrigado a deixar a cidade.



Em Paris, Julien conhece a alta sociedade. Torna-se secretario do marquês, pai de Mathilde, por quem se apaixona. Na obra, "Vermelho e o Negro" Stendhal mostra o comportamento da capital e do interior. E a decepção da descoberta que a cultura é apenas superficial e status quo.A sociedade que Julien vive é como o autor caracterizava sua época: de pouca determinação e muita ambição, muita conspiração e pouca coragem. Infelizmente o romance de Stendhal é perene na sociedade. Somente trocando alguns objetos, os personagens e o discurso, mesquinhos e superficiais podem ser encontrados ainda hoje.

Beatniks na estrada da contracultura

On The Road, obra de Jack Kerouac, até hoje ainda é a ideal para se levar na mochila pegar a estrada



Enquanto o American Way of Life (modo de vida americano) deslumbrava o mundo, alguns poucos "malucos" pegavam o caminho, a estrada inversa. O primeiro movimento americano contracultura foi o beat geração, preconizado por Jack kerouac. Os beatniks, como ficaram conhecidos, eram jovens que, desestimulados com o modo de vida urbano pós-guerra, regados de jazz, sexo, drogas e literatura, resolveram cair na estrada.


Pé na estrada (on the road), livro escrito em 1955 por Kerouac no melhor estilo beatnik: em um rolo de papel de teletipo, tornou-se a bíblia daquela uma geração. Mas a obra também inspirou ídolos jovens de diversas épocas desde Bob Dylan a Cazuza. Os beatniks são os pais dos hippies e avôs dos punks.


Em 2004, a editora L&PM contando com a tradução, introdução e posfácio de Eduardo Bueno, lançou o livro pela primeira vez no Brasil. A obra Pé na estrada (On The Road) conta a história de dois amigos que decidem cruzar os Estados Unidos pedindo carona, com pouco ou nenhum dinheiro.


O leitor mais atento poderá perceber que se trata das aventuras de Jack kerouac com seu amigo o poeta beat Allen Ginsberg. Lançado em pocket book (livro de bolso) é ideal para levar na mochila e pegar "a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada..." (pagina 305).